"Eu precisei partir.
É, eu tentei.
Eu abri as janelas todas as manhãs e deixei a luz do sol entrar, com a esperança de que ela preenchesse aqueles cômodos que, mesmo estando ocupado por nós dois, pareciam estar vazios.
Eu reguei as flores, porque queria que algo permanecesse vivo.
Organizei seus livros e discos, achando que a organização externa camuflaria a bagunça que se passava aqui dentro.
Você me disse que amar é remar em alto-mar, mas quis que eu conduzisse ambos os remos. E, enquanto a água que invadia o bote cobria nossos corpos, culpou-me, fazendo-me acreditar que meus braços eram fracos e incapazes de resistir a maré.
Foi por isso que resolvi partir.
Porque meus pulmões gritam quando veem a água tocar meus pés. Porque meus braços estão cansados e, mesmo remando incessantemente, permaneço no mesmo lugar.
Preciso partir porque estou partido.
Ir embora me dói, confesso, mas continuar aqui, também.
Dentre as feridas, optei por aquela que cicatrizará mais rápido.
Com carinho, a pessoa que deixou de remar por dois e aprendeu a nadar por ela.
Adeus."
Felipo Rolim