quarta-feira, 27 de maio de 2020

fluxo e tempo

O amor é uma coisa engraçada.

Primeiro ele surge de fininho. Você sente que algo está crescendo, mas quando você olha ele te tomou todo seu coração.

E como nós humanos não sabemos direito a medida das coisas, achamos que é impossível amar mais alguém. Mas amamos cada segundo mais. O amor cresce e floresce.

Aí nós acostumamos a ele. E o amor não gosta de conformidade.

Da mesma forma sutil que ele surgiu, ele começa a morrer. No início são pequenas coisas, que não importam tanto... Mas a morte vai crescendo e embolando tudo o que foi bom com falta e vazio.

O que sobra do seu coração tomado, é oco.

É assim que sentimos. A vida, com seus nascimentos e mortes, é poderosa e nos arrasta. Sentimos que não temos o controle dos amores, nem mesmo em seu fim.

Mas vai passar. A vida é fluxo continuo de inícios e fins... Não é fácil, mas não é tão descontrolada ou cruel quanto nos parece em certos momento. É só o fluxo seguindo.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

A gente só deveria se importar com quem nos ama. Com quem nos faz bem. Aqueles não nos amam, ou nos amam pouco (o que é pior ainda) não deveriam fazer parte da equação.
Que régua maldita é esse que te mede por quem não te ama?

domingo, 17 de maio de 2020

amenidades

Amenizar

1.
transitivo direto e intransitivo e pronominal
tornar(-se) ameno, brando; suavizar(-se), abrandar(-se).
"a leitura ameniza-lhe o repouso forçado"
2.
transitivo direto e intransitivo e pronominal
tornar(-se) menos penoso, custoso ou difícil; mitigar(-se), suavizar(-se).
"remédio para a. a dor"

Eu aprendi a amenizar todos os meus sofrimentos. Todo mundo parecia sempre muito ocupado e eu nunca gostei de parecer vulnerável. Então eu diminuia, abrandava. "Não é tão sério". "Amanhã será outro dia". "Eu sei que vai passar". "Tá tudo bem".

Mas amenizar é perigoso. Porque você começa fingindo para fora, depois para dentro (se eu disser que não importa, talvez não doa tanto né?). Depois você começa a não se lembrar mais de como é expressar o quanto te doeu de verdade. Depois você não sabe mais como expressar nenhum sentimento na medida em que sentiu.

Um dia eu disse que amava alguém, mas meu coração parecia sentir bem menos. Um dia alguém me magoou profundamente e eu contei essa situação assim: "fulano falou algumas coisas ruins... fiquei chateada, mas tudo bem, bola para frente".
Só que não tava tudo bem. E eu não estava pronta para ir em frente. Meus choros viraram só um enxer de água nos olhos e depois só um nó na garganta que nem chegava no rosto... 
E tão trancado ficou tudo no peito que as alegrias ficaram cinzas também. Amenas. Distantes...

A terapia começou a organizar as coisas para mim. Destampar. Consigo até dizer o momento que isso aconteceu: contei algo triste e uma leve emoção passou por mim. A história era intensa e pesada, falando de alguns dos meus maiores sofrimentos, que vinham me atormentando. Mas a emoção não foi mais do que um pequeno engasgo e uma sombra nos olhos.

Minha terapeuta perguntou se havia emoção e pediu para eu me concentrar um pouco na emoção. Eu fechei os olhos, mas racionalizando que o meu problema era EXATAMENTE não conseguir me conectar com isso e que o experimento não ia funcionar, porque eu ia continuar distante daquela dor. E aí eu chorei. Muito.

E choro agora enquanto escrevo. Agradeço por chorar enquanto escrevo. Porque o choro vem como um alívio e a permissão para voltar a sentir as coisas da forma como elas vem para mim. Sem amenidades, sem ser Poliana.