Conto

[Como disse, organizei o conto linearmente agora que o terminei. Ainda está sem título. Alguma idéia?]

O amor não foi feito para dar certo. Pelo menos não o amor apaixonado. Dois seres humanos nunca vão se apaixonar sem se degladiar. Há muita fome, sede, desejo emaranhados na teia do sentimento que pulsam pelo objeto amado para haver ainda paz e certezas. Só existe mesmo o campo de guerra.
Enquanto todos querem viver a paixão, o mundo dará errado. A paixão deveria ser superada tão qual uma febre é. Uma doença que te toma e que só serve mesmo para te deixar de cama em casa vendo tv.
A paixão consome, queima, mata.
É o que faz com todos.
É o que fez com eles.
Ela atendeu o telefone.
-Nina?
Era aquela voz que tinha ido embora tantas vezes que já não cabiam mais nos seus dedos. Os olhos delas ficaram úmidos logo. Era assim agora, logo chorava. Deviam ser os hormônios.
-Nina? Você tá ai? Merda Nina!
A voz aumentou o tom, ela sabia que devia responder, mas era como ver um filme de si mesma. Estava lá parada com o telefone vermelho no seu ouvido e, ao mesmo tempo, estava num quarto de hotel fechando as malas pela primeira vez.
-Merda! Merda! Merda! Que porra Nina! Eu preciso falar com você! Seu marido ‘tá por aí?
-Não. – Ela sentiu o sangue sumir. Foi um susto responder tão prontamente, como se estivesse esperando o momento de falar. Tentou respirar.
-Hm, então por que não falou logo?
Em resposta ela bufou longamente e pensou nos cigarros que sua mãe fumou até morrer. Daria sua vida por um daqueles agora.
-Por que você ‘tá me ligando Daniel?
-Nós somos amigos, não somos? – Ele falou confiante e esperou pela resposta que ela não deu, então continuou vacilante: -A gente podia se ver.
-Não, não podemos. Já nos vimos demais, brigamos demais, amamos demais... Daniel... – Ela soluçou. –Eu quero ficar em paz. Me deixe em paz, me deixe no meu casamento, na minha felicidade, na minha vida.
-Por Deus Nina! Você sempre distorce tudo! Sou só um velho amigo querendo rever uma velha amiga.
-Não seja babaca, você nunca vai ser um só um velho amigo. Nenhuma das vezes foi assim, não me diga que você não sente ainda a mesma coisa. É isso? Você superou tudo e veio até aqui sem recentimentos, ou qualquer sentimento, para apreciar minha felicidade?
-Eu pensei... – Ele se calou um momento. -Me contaram que está grávida.
-Sim. –A voz seca arranhou os ouvidos dele como navalha.
-Achei que estivesse feliz... Que estivesse completa... Se fosse assim, eu suportaria te perder. Suportar bancar seu amigo e tudo o mais que você quisesse Nina. – Ele esperou novamente pela resposta inexistente. –Sinto sua falta.
Ela segurou mais firme o telefone. Desejou imensamente desligar, e ainda mais intensamente desejou dizer que sentiu falta dele cada segundo da vida dela. E cada vez que sentiu saudade soube que não seria completa sem ele, mas era tão tarde. Sentiu uma onda de lágrimas escorrer pelo rosto, ela apertou o fone vermelho até sua mão ficar da mesma cor. Não falou nada, também não desligou. Ficou ali segurando o fone mesmo depois de ouvir o sinal que ele encerara a ligação.
Ela escorreu pela parede de olhos fechados. Sentiu que o tempo também lhe escorria pelos dedos. Estava no hotel, fechando as malas. Era a primeira vez. De novo.
-Eu cansei, porra. Você acha que vou sempre ficar aqui, esperando você fazer as suas escolhas? Vim com você, apoiei suas descisões, te segui pelo país largando minha vida para trás! Para que? Você não liga!
-Deixe de fazer drama! Eu não sumi por um mês! Só não voltei no dia que prometi!
-Você me deixou sozinha nessa merda de cidade, sem notícias suas, por dois dias inteiros!
-Eu mandei uma mensagem. Porque não me ligou? – Ele sorriu de leve e a puxou pelo braço. Aquilo fez explodir em seu peito a raiva.
-Acabou Daniel! Chega de sumir, chega de viagens súbitas, chega de esperar notícias. Eu estou indo embora.
-Nina, sei que você tá chateada e está com a razão, mas vem comigo. Eu posso te arranjar um vôo agora de volta se é o que quer, mas estamos indo para o Rio... E lá vamos ter uns dias só para nós, isso não é melhor que um tempo separados?
-Você não entendeu. – A raiva passou, ela sentiu uma dor profunda cortando ela ao meio. Levantou o rosto e encarou o sorriso dele com as lágrimas presas nos olhos.- Acabou. A nossa história acabou, Daniel.
Nina não olhou mais para ele, tudo doía demais. Só pegou a mala e partiu para os quinze dias afogados em lenços descartáveis, livros de romances baratos e sorvete. Seu coração estava partido, havia se entregado aquela história, acreditado na força que sentia quando estava do lado dele, acreditado que poderiam fazer tudo funcionar, crescer. Deus, tinha acreditado tanto! Só que o amor não é apenas sobre estar com alguém... E a paixão não é apenas sobre sexo. Mesmo que fosse incrível.
Foi no meio de um livro particularmente choroso e ruim que ela ouviu uma discussão na sala entre sua colega de quarto e ele. Não houve tempo realmente para Nina abrir a porta de seu quarto, Daniel estava ali, escancarando a porta e dizendo que não importava o que ninguém dissesse, iria conversar com ela naquele minuto.
Então se olharam e fecharam a porta atrás de si. O diálogo que se seguiu não foi nada longe dos clichês de sempre: “Não vivo sem você”, “Minha vida perdeu o sentido” e essas coisas. Logo a cama fez companhia para eles também.
E foi tão lindo. Tão mágico. A cama era a única coisa no universo deles que importava por dois dias inteiros, além deles próprios. Contaram as velhas piadas, riram delas. Contaram novas e riram ainda mais. Escaparam de seu universo particular para trazer comida e voltaram correndo. O lençol caiu lentalmente na metade do primeiro dia e se perdeu, ninguém se preocupou. Em algum momento um deles finalmente lembrou que havia vida lá fora e eles concordaram em ampliar seu universo para fora da cama e do quarto. Foram dias bons.
E então novas brigas.
Eram desejos demais, expectativas demais, tudo em excesso. A paixão é basicamente excesso. Humanos são seres viciados, me diga um homem que não tenha um vício, uma coleção, uma mania... Não existe. E o maior vício do ser humano é drama. A paixão é um dos vícios mais perigosos. Quando você é apaixonado por alguém, você não deseja só bem daquela pessoa, deseja o mal dela toda vez que ela sai um milímetro da linha traçada a sua volta.
É doentio. É sujo. É dilacerante. É preciso superar.
Se não superamos, brigamos por causa da vizinha que foi simpática, da louça suja, de um “bom dia” dito menos animado. E seguimos brigando. E por fim acabamos com tudo, menos com o fogo. E a paixão é o fogo. Então acreditamos que ainda há amor, porque ainda arde. E o que existe é só algo queimando e destruindo. E fogo queima a casa enquanto o casal queima a cama.
E seguem, até não sobrar nada.
E eles seguiram. Nina se lembrava agora de uma tarde em todos os limites se quebraram. Estavam ambos se acusam de acabarem com a relação, de terem feito coisas feias e sujas demais. Era outubro e o sol batia através da janela do apartamento dele. Lembrava de como a luz o fazia parecer tão distante. Foi tão fácil dizer-lhe o que havia feito. Que havia dado o troco em todas as suas traições. Daniel gritou com os olhos um segundo antes de fazê-lo com a boca.
Não poderia perdoá-la, nunca. Como ela havia feito algo assim. Nina sentiu algo verde e nauseante subir em seu peito. Parecia tudo muito engraçado de repente. "Como?" Tinha uma visão muito interessante de tudo aquilo no momento.
-Cala a boca Daniel. Você me fez ser assim. – Ela fechou o punho e cerrou os olhos verdes brilhantes em fúria. –Um dia eu fui capaz de achar que nós valíamos a pena, e perdoei cada coisa. Hoje eu quero te magoar e te ferir até você sentir cada marca que ainda tenho por sua causa. Um dia eu fui capaz de simplesmente ir embora, agora eu preciso ficar. E você vai pagar até a conta ser fechada.
Se encararam na inevitável constatação de que nunca acabariam. Ela o odiou. Ele a amou. O coração de Daniel estava partido em dois e uma parte era um imã inevitavelmente até Nina. Grudou sem corpo no dela. Ela não reagiu. Ficaram suspenso num limbo por um momento. Grudados e separados, quebrados e amarrados.
Ela abriu os olhos, sorriu maldosa fazendo cada pelo da nuca de Daniel se arrepiar. Empurrou os corpos até a parede e puxou sua boca, cintura, costas, tudo o que alcançou. Expulsou o limbo para longe. Estava cansada e ia dar as cartas. Foram até a mesa e toda a prataria foi para o chão. Ela adorava mesas. Jogou o corpo por cima do dele e tirou sua blusa. Fincou as unhas na lateral do corpo dele, precisava sentir que poderia fazer isso, poderia feri-lo e tê-lo. Estava deliciosamente ferrada. E não importava, nada importava, desde que levasse ele junto. Foi sublime.
O novo jogo era essencialmente quente. Ela queria derrotá-lo, ele queria provar que se amavam. Estavam empenhados nas suas lutas. Estavam empenhados em muitas coisas na verdade: em amar, odiar, mudar, ser, acontecer, desejar, deixar... Eram tantos os caminhos que mais parecia um labirinto. E queimava. Os corpos calavam a boca cheio de fogos de raiva e paixão. Trocavam de papéis amando- se e odiando-se. E era tanto.
Um dia Nina acordou. Era um amanhecer de uma quinta-feira chuvosa. O corpo de Daniel aquecia a cama. Ela abriu os olhos e tudo se encaixou. Soube com cada parte sua que nunca teria fim. Já havia sido divertido, trágico e triste. Agora era só tarde e dolorido. Levantou em silêncio, vestiu uma roupa, pegou a bolsa marrom e saiu.
Não sobrou nada mesmo, a não ser um punhado de lembranças transformadas em cinzas pelo foguarel. Acabados e sujos, ainda cheios de desejos mas cansados de lutar. O que restava desse amor? O que restava a eles, se não resistir firmes a seus impulsos de se destruir?
Foi até o café em que costumava ir com as amigas antes dele. Era o destino? Ou apenas era o tempo fazendo seu trabalho? Lá estava um homem a quem Nina podia olhar com outros olhos. Isso não acontecia a tanto tempo. Sabia que se pensasse voltaria. Não pensou, não olhou para trás. Nem mesmo buscou suas roupas. Só foi até a mesa daquele homem e puxou um papo e seguiu para frente com sua vida.
E agora estava com seu telefone vermelho nas mãos.

2 comentários:

Satore disse...

Rinah arrajando no continho u.u Avassaladora! Como eu já disse antes, eu gostei muito do texto e quero ele no meu blog ^^

Squall disse...

Muito bom! Deixou akele gostinho de quero mais!

Me lembra suas fics!

Continua!