Eu me acostumei com a solidão. Seja pela pandemia ou pela vida, me acostumei. Curto vários momentos meus comigo. É bom não se explicar, não dividir, ser somente minha.
Confesso que tenho criado distâncias onde não precisaria, para além das imposições que a vida consciente em 2021 exige. É porque não aprendi a equilibrar. Então acabo achando mais confortável ficar quieta. Só eu.
Mas tem um momento que sempre me pega. É cozinhar almoço no fim de semana. Não sei nem explicar direito o porquê, mas nessa hora eu me sinto solitária de verdade. Começo a cozinhar e sinto que nada mais faz sentido. Me pergunto o que to fazendo da minha vida. Os medos começam a aparecer. Não vou dar conta da vida, vou ficar sozinha para sempre, sou um fracasso, não tem sentido seguir em frente...
Demorei até a entender que de fato é esse momento que é um gatilho. Agora pensando bem sobre o assunto, as conversas mais frágeis que eu tenho são nesse momento (acabei de mandar uma mensagem baixando a guarda para alguém que para mim está encerrado o assunto).
O que tem ali, nesse momento? Nunca cozinhei só para mim, sempre para um grupo. Almoço é momento familiar. Mas essa ainda não é a explicação. Ou pelo menos não a única.
É quando começo a cozinhar que eu penso em todas as coisas que ignorei durante a semana. Tudo aquilo que não tem como mudar. Que não tem como mexer. Que eu só fingi que não doeu, porque é a vida... E tudo dói, de uma única vez. Não tem música, novela, nenhuma distração que me tire do looping de medos, dúvidas e dor.
Hoje me derrubou literalmente no chão.
O que eu faço com isso agora? Não sei. To tentando acolher...
Ainda sobre ficar frágil: quando digo que esse é meu momento de maior fragilidade, não significa que é ruim ou bom. Só é o que é. Ser frágil é parte de ser gente.
Um comentário:
Talvez o problema seja que, como cozinhar é um modo de demonstrar cuidado, carinho, amor para o próximo - família, amigos, amores -, e a comida que prepara não estar sendo ofertada a ninguém seja o que te leve a esse sentimento, e por estar fazendo sozinha acaba por permitir que seja um momento de reflexão, de repassar as conversas, de passar o caderno a limpo.
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