quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Aquelas dúvidas que a carência trás

Eu sou uma mulher decidida. Não é uma casca. É que eu sou. Eu sou decidida. Eu sou direta. Se eu quero eu digo. Não aprendi a deixar espaço para dúvidas ou erros.

Sou assim no trabalho, sou assim nas relações. 

Não tenho medo de dizer se quero algo, se quero sexo, ou se quero amor.

Mas eu morro de medo de ser demais. Eu tremo toda vez que dizem que eu assusto. Quando conto um causo e me dizem "mas ele tava com medo... tu chega dizendo isso...". 

O que eu faço com tudo isso que sobra? Que é demais? É porque ninguém tem coragem de dizer o que sente? Ou é porque eu sou mulher? 

Bauman fala que o segredo das relações líquidas é o jogo entre ser uma relação totalmente descartável, mas, ao mesmo tempo, cheia de promessas de não ser. É comprometer o outro sem se comprometer... Mas eu não sei não me comprometer.

Eu já saio logo me comprometendo. Se a gente acorda que é no hard feelings, eu vou dar o meu melhor para estar ali de corpo e alma, sem entregar o coração. Tudo bem, tudo ótimo. E se eu quiser isso, vou te dizer. Porque não quero depois marmanjo dizendo que não foi avisado.

Agora se for uma relação, eu vou estar ali 100%.

E não é só o desejo expresso de forma direta. Eu me mostro muito. Eu falo. Eu escrevo. Eu fantasio. E eu só mostro 20% de todas as incongruências, pensamentos, desejos, que eu sou. Fico apavorada, contando as palavras. Pensando o que diabos eu tenho que fazer para não assustar?

E eu queria muito mandar tudo as favas. Melhor assustar logo né? Não quer? Corre. Mas será? Será que eu não to inviabilizando relações?


Nossa. Cansei. 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Enxente

É raro, mas as vezes eu tenho vontade de escrever. ESCREVER. Sem saber sobre o quê. (Geralmente o que me move aqui e nos meus contos, é a vontade de falar sobre algo específico. Já bem definido. Não tem página em branco.)

Hoje é diferente. Hoje eu não sei onde essa página leva. Hoje eu queria falar sobre os sentimentos que tenho aqui dentro. Talvez, o primeiro impulso, é dizer que preciso organizar. Mas não é isso. Eu to indo bem na organização. Hoje eu preciso transbordar. 

Já me descreveram antes com a metáfora do lago. E a metáfora para a água de escorpião também. Você olha o lago de fora e ele parece tranquilo, mas ele é fundo e um turbilhão de coisas está ali. Ele é misterioso e poucas pessoas tem interesse/disposição/coragem para mergulhar.

E hoje o lago precisa transbordar, inundar. Não sei ainda bem como, ou para onde, ou por quê.

domingo, 9 de agosto de 2020

Impresso na pele

 Já faz tanto tempo que nós dois fomos nós dois. Muito mais tempo do que o mundo sabe. Porque nós não somos nós, muito antes dessa relação terminar.

Mas, ainda assim, aquelas tardes em seu apartamento estão impressas na minha pele. Aquele curto período de tempo de paixão e amor, em que nossos corpos realmente pareciam ser apenas um e a gente só queria nunca mais sair dali. Quantas vezes dissemos isso?

O sexo parecia uma oferenda ao nosso amor. Era lindo, mágico... Na minha lembrança até a luz parecia mágica. E quando falo de amor por ai... Eu penso nesses dias. 

Sinto em cada parte do meu corpo um arrepio, depois a falta e a tristeza. Onde a gente perdeu aquela conexão? 

Infelizmente eu tenho descoberto que a resposta é quando eu comecei a fingir não ver os problemas. Eu passei tanto tempo querendo garantir nossa felicidade, nosso sonho, nossa normalidade, que empurrei os problemas tanto quanto você (ou mais). Você mentia e eu fingia que acreditava... "Deixa para depois, isso não é importante." Mas era. Tudo era importante, para manter aquela conexão.

De tudo da nossa história, eu evito pensar nesses primeiros dias. Quando penso é como se o corpo inteiro levasse um choque e a tristeza é gigante. Porque isso era raro. E se quebrou. 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

O diálogo que eu queria ter

-Vamos sair hoje?
-Tenho planos já.
-Qual?
-Nao ser feita de trouxa.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

a minha única oração

Deusa, que eu nunca me arrependa de me abrir e mostrar toda minha intensidade para alguém. Que eu sempre me lembre que tudo isso é quem eu sou: inteira, intensa, forte. Não é dose para qualquer um. 
Me de a luz de saber a minha hora de mostrar, mas que eu não sofra se para alguém isso for demais.
Que eu não fique onde eu não couber.

terça-feira, 14 de julho de 2020

o silêncio da quarentena

Até agora eu não falei sobre a pandemia. Isso porque eu tenho estado tão focada em mim que não me sinto apta para falar sobre qualquer coisa de fora.

A pandemia me obrigou a pausar. A desligar o motor. Logo no início eu fui dispensada do trabalho. Faziam anos que eu não parava mais do que alguns dias.

Então eu parei. Foi muito bom. E eu sei que não existe lado bom da pandemia, só estou falando da experiência particular de parar de trabalhar, sem obrigação de voltar em seguida, sem prazo.

Mas descansar não foi fácil. O corpo acostumado a ter uma lista de tarefas (e no meio de uma pandemia) não relaxava. Tudo me deixava ansiosa. Será que tem comida em casa? Será que eu tenho atividades para preencher o dia? Comecei a fazer yoga feito uma alucinada. Adiantei minha pós. Fui produtiva.

Eu estava cumprindo bem minhas tarefas, mas uma coisa que me incomodava era que eu não tinha vontades de quase nenhum dos meus hobbies. Isso já antes da pandemia. Não tinha vontade de ler, ou ver séries, ou qualquer coisa na verdade... Meu último refúgio era jogar com amigos, porém, sendo sincera, nós últimos meses isso já não era a mesma coisa. Estava tudo cinza.

O tempo foi me soltando. Conforme meu corpo se sentiu descansado de verdade e minha consciência corporal foi aumentado com o yoga, fui me dando conta das coisas.

Veio um período de muita dúvida e dor. Vinham ondas de tristeza, choros, perguntas, insônia. Alguns dias bem ruins.

Eu não estava deprimida. Cada onda de tristeza vinha com uma onda de calma. Um sentimento de que eu tava desafogando. 

Comecei a entender o que não dava mais. Na verdade ainda estou aprendendo. Aí comecei a dizer alguns nãos e alguma coisa mudou (em mim ou em volta?). Cada não virava uma oportunidade melhor. 

Eu poderia dizer que estou me valorizando, sendo forte... A verdade é que as ondas de tristeza me trouxeram uma incapacidade de voltar a fazer coisas no piloto automático, a fazer algo porque é conveniente, ou parace o "certo". Só não dá mais.

Agora eu não sei ao certo onde quero estar no mundo, mas tô mais forte para dizer onde não quero. Também voltei a ter vontade de fazer as minhas coisas. Comecei a estudar python. 

Não sei explicar direito: essa jornada não tem sido fácil, mas nunca me senti infeliz. Mesmo no pior período eu me sentia bem de estar passando por isso. Porque eu senti muita falta de mim mesma. Eu sabia que sentir dor era melhor do que não sentir quase nada...

segunda-feira, 22 de junho de 2020

...

Teimosia ou loucura, é fazer a mesma coisa e esperar um resultado diferente. Então porquê?
Eu tenho muita dificuldade de abrir mão de algo que não se concretiza, para o bem ou para o mal. Eu preciso conseguir, ou ter certeza que não há nenhuma chance ali de dar certo. Minha fantasia é forte demais para encerrar algo sem uma decisão. Aceitar que a falta de resposta do outro já é a própria resposta.

Então, de novo, estou diante desse ciclo: eu já tentei tudo o que eu podia para conseguir levar uma história adiante, as respostas sempre foram evasivas. Minha reação da primeira vez foi dar deixar BEM CLARO que EU estava fechando a porta, porque não sou mulher de metades, de portas abertas que esperam eternamente... Ou tá com os dois pés, ou não tá.

Eu tinha certeza que tudo o que vinha dali era um jogo. O cara sempre aparece para falar como está com saudades, ou como seria legal SE um dia fossemos fazer alguma coisa... Mas na vida prática, esse SE, nunca aconteceu. E eu sei que quem quer, arranja tempo, arranja espaço, convida de verdade, com data e hora.

Então cansei desse jogo e mandei tudo as favas. Certíssima.

Mas o tempo passou. E se a porta tava fechada, achei que não teria mal abrir uma janela, tentar outro tipo de convivência. Por quê? Não sei responder... Talvez, dentro de mim, a fantasia tenha criado mil desculpas para tudo. Eu comecei a enxergar uma possibilidade. Eu podia fazer melhor. Eu podia criar uma possibilidade que funcionasse. Porque tudo o que eu imagino que esta pessoa tenha para oferecer, o que eu imagino que poderíamos ser, vale a pena.

Então abri a janela, a porta... E agora estou sentada no sofá, de novo, esperando... E louca para fechar a porta e a janela, mas não sei como fazer sem drama, sem jogar na cara, sem brigas. Sem ponto final.

Tenho que aprender que, na vida, reticências também significam o fim da frase.