O salão estava em silêncio, as velas iluminavam pouco. Sirius se aproximou de Bella com dois passos curtos e pôs uma mão em sua cintura e a outra buscou a mão branca de sua prima. O contato sobre o vestido era frio e escorregadio, mas ainda assim irradiava aquela energia que o encantava, como canto de sereia.
-Sabe dançar Sirius? – Bella encostou o rosto de leve no dele e lhe sussurrou ao ouvido.
-Aprendi valsa aos sete anos Bella. Não há dificuldade alguma. – A música começou com um violino lento.
-Então espero que não tenha problemas com ritmos mais... Interessantes.
-Quê? – O violino parou e toda a orquestra começou a tocar um tango triste e intenso.
O grifinório a encarou sorrindo de leve, achava que a escolha combinava perfeitamente com Bellatrix, a segurou mais firme e mais perto de si e a conduziu para direita com passos bem marcados. Bella sorriu com o mesmo desdém que Sirius demonstrou um pouco mais cedo, lhe mostrando que ela podia fazer mais do que isso.
Sirius soltou a mão que lhe apoiava as costas e a girou rápido puxando de volta igualmente rápido. A sonserina perdeu o equilíbrio e ele a elevou no ar no momento em que a música parou um instante.
Ele a desceu devagar. Quando Bella alcançou o chão de novo segurou as duas mãos de seu primo e desceu devagar escorregando sua perna esquerda para trás, a música chegou a um ritmo mais rápido e Sirius a ergueu. Ambos começaram a se mover pelo salão velozes, cruzando e descruzando as pernas* de maneira que os convidados tinham dificuldade de acompanhar. O ritmo era cada vez mais lancinante e o olhar do casal faiscava no que parecia uma guerra de pernas e passos.
Ele a afastou e a puxou e ambos giraram, parando em frente a Malfoy. O ritmo finalmente cedeu em intensidade e Sirius a curvou e, quando ela abaixou a cabeça para acompanhar o movimento, Sirius buscou seu decote e encostou o rosto de leve, respirou o cheiro próprio dela que lhe impregnava. Bella sentiu sua pele arrepiar enquanto o rosto dele subia devagar até seu pescoço, então aproveitou-se do rasgo de seu vestido para por sua perna em volta da dele, muito mais para manter a firmeza do que pelos passos executados.
A sonserina respirou de olhos fechados e ergueu a cabeça encarando seu primo que a olhava intenso e sério. Ele segurou a perna dela e atravessou o salão arrastando delicadamente, tanto quanto possível durante um tango. Então num golpe rápido a ergueu e virou para o outro lado e desceu um pouco, apoiando a deitada em sua perna enquanto a música alcançou sua nota final. Os lábios quase encostados pararam no meio do caminho e esperaram até as velas se acenderem para então se levantarem.
Ambos pareciam ter esquecido do salão e de todos os convidados, todos ali se sentiam demasiadamente como intrusos numa guerra particular para bater palmas. Sirius ajudou Bella a ser erguer sem olhá-la e foi em direção a escada da casa, enquanto sua prima virou-se para o outro lado.
"Alguns escritores escrevem compulsivamente para preencher o enorme vazio dentro d si"
GUERRA, 2008.